Os cotidianos de escolas públicas são compostos por uma inapreensível e rebelde multiplicidade de práticas, experiências e modos de existência, realizados-criados no intenso encontro coletivo dos corpos de estudantes, professores e demais sujeitos que habitam esses cotidianos e, ininterruptamente, engendram suas práticas e desenvolvem táticas de resistência e desvios (CERTEAU, 2012) frente às forças políticas hegemônicas e suas estratégias de determinação da organização, da instituição dos currículos e da formação de corpos, em consonância com os interesses de uma sociedade capitalista, produtivista, consumista etc.. Partindo deste entendimento, neste trabalho apresentamos parte de uma pesquisa de doutorado (UERJ/CAPES) na qual estamos produzindo uma cartografia (DELEUZE; GUATARRI, 1995) audiovisual com um grupo de estudantes-interlocutores envolvidos nas oficinas de criação artística (poemas, músicas, filmes, telas, álbuns fotográficos etc.) ao longo do ensino médio em uma escola pública na Bahia. Na composição desta cartografia os estudantes foram convidados a produzir vídeos sobre suas experiências nas oficinas de criação artística e sua consequente participação nos saraus, festivais e exposições, em que suas criações são apresentadas para a comunidade escolar e externa. No processo de criação dos vídeos, em andamento, os estudantes foram convidados a perambular por um acervo de imagens (fotografias e vídeos), sons e textos produzidos na escola para e sobre esses eventos e disponibilizados em um site (https://www.criarteceaco.pictures/) criado durante a pesquisa. A partir dos vídeos dos estudantes, buscamos compreender o imaginário e os diversos sentidos que eles produzem sobre as experiências de criação artística e estética vividas na escola, sobre os pensamentos, sentimentos e influências que elas provocaram em suas vidas, sobre como elas afetam a formação de seus corpos/subjetividades, sobre como os estudantes se veem a partir dessas experiências e como visualizam a escola com elas e sem elas, quais significados lhes atribuem e como as consideram no conjunto das experiências formativas que a escola lhes proporciona, bem como essas experiências contribuem para a singularização dos cotidianos e do currículo da escola. A partir dos primeiros encontros com os estudantes-interlocutores, como também do meu envolvimento na realização das oficinas de criação artística ao longo de uma década, enquanto professor, percebemos que essas experiências, realizadas fora dos espaçostempos e obrigações disciplinares, constituem uma produção estética (HERMANN, 2010) que atravessa as fronteiras da escola e, provavelmente, afeta os estudantes na “criação de si” e da escola como obra de arte (DIAS, 2011) e constituem experiências marcadas por momentos de alegria, festa, fruição e gozo coletivo.