Em 2013, o governo brasileiro lançou o Programa Mais Médicos para o Brasil (PMM) com o objetivo de suprir a falta de médicos/as para atendimento no Sistema Único de Saúde. Cerca de 12.000 cubanos/as chegaram ao país para ocupar posições em localidades não atendidas por brasileiros/as. Trago para reflexão a experiência de quatro mulheres-médicas lotadas em áreas de difícil acesso, no contexto da Amazônia Legal brasileira – um Brasil diferente daquele projetado internacionalmente pelas telenovelas. O artigo tem como objetivo analisar nuances interseccionais de gênero em contraste com o status profissional dessas mulheres, no âmbito do PMM. O texto procura responder, com base em entrevistas em profundidade sobre suas interações socioculturais na Amazônia brasileira, como a condição híbrida/ciborgue de mulher e médica influenciou de maneira peculiar as relações das cubanas com as populações locais e colegas de trabalho. Questiona-se em que medida as percepções sobre as capacidades técnicas se sobrepõem às diferenças de gênero, contudo sem extingui-las. São analisadas: i) as expectativas sobre o Brasil e a realidade encontrada nas longas viagens por água e por terra; ii) o exercício da medicina na Amazônia; e iii) a proximidade com os/as brasileiros/as e a distância em relação aos familiares em Cuba. Por fim, é discutido o conceito de “isonomia tecnocrática ideal”, chamando atenção para o mascaramento das diferenças de gênero sob o discurso de uma aparente igualdade em termos de qualificação profissional.