Ao transitarem para o espaço público, as histórias de violação perdem frequentemente o seu referente inicial para se tornarem catalisadores dos receios, conflitos, rivalidades e ódios de carácter político, económico ou étnico de uma determinada sociedade ou grupo social. Não só na propaganda de guerra o Outro, o Inimigo, é frequentemente esconjurado como vil violador. Também os “tempos de paz” oferecem exemplos de aproveitamento de violações para definir quem deve ser excluído. Esta contribuição pretende reflectir, a partir de um debate promovido em 2006 na revista norte-americana FrontPage Magazine, como certas violações cometidas na Europa por imigrantes muçulmanos foram reinterpretadas como ritual bárbaro e instrumentalizadas como prova do carácter “não-europeu” e “não-ocidental” do Islão.